| sexta-feira 03 de outubro de 2008 |
LUA, LUA, ME LEVA...
“Nosso derradeiro dia desceu” tocou antes do noticiário do meio-dia da Rádio Nacional, já havia neve, a neve que caiu ontem à noite enquanto os deputados passavam em revista a atual situação ao vivo na tevê, o fim do mundo dobrando a esquina e eu meio dormindo deitado no sofá, enquanto a neve caia e os deputados agiam como se o mundo fosse acabar, lua lua ME LEVA, pensei, e de manhã enviei reforços ao mundo em forma de pistola, ameaçamos atirar contra a neve, ontem à noite a rádio saiu do ar ainda por cima, e nunca antes o apartamento foi maior do que naquele exato momento, e as persianas mais compridas, enquanto nos arrastávamos pelo chão, eu e o reforço, que de manhã ameaçava atirar contra a neve, a rádio saiu do ar e nós aguardávamos os papais noéis, uma vez que a neve já tinha caído, a primeira neve, ai este tecido, a cidade flutuava sobre flocos de neve, aquele que aparecer na porta não importa com que roupa, está marcado pra morrer. A gente vai superar isso juntos, meu amor, disse o deputado, vou te manter aquecida, coloca a tua cabeça na almofadinha de agulhas, eu moro num cofre de banco, não há nome algum escrito sob a campanhia, mas eu tenho os músculos da bunda bem duros, tenho cinco despertadores, e me encontro totalmente preparado para enfrentar o novo século. Fiz um empréstimo em moeda estrangeira, em dólar do Zimbábue, morri de fome no fiorde de Olavo, vivi momentos de felicidade no tobogã da piscina de Acureire, fui num piquenique com mirtilos numa cesta de moedas, minha cotação subiu e desceu e está agora num piso histórico, mas o Banco Central não tem nada a ver com isso, o IPC não mais me inclui, não sou mais monitorado tem tela alguma, porém plantei árvores nos moles para estar preparado para o que der e vier, os bancos de corais vicejam mas há no entanto um cão na copiadora, por isso pouco irão ouvir de mim daqui pra frente, é pura coincidência, mas minha mente me diz que os bancos vão continuar abertos bem depois deste século, ou pelo menos até o Natal, sonho em integrar os Motion Boys, sento e estouro balões porque não tenho nada melhor o que fazer, e então um guri me ameaçou com uma pistola, primeiro apontou-a para mim, depois para a tevê, e por fim para a neve. A canção “Nosso derradeiro dia desceu” tocou antes do noticiário do meio-dia da Rádio Nacional, Isaque: “Ai lua, me leva, lua e não me culpa de nada, me leva no teu colo, me leva nos teus braços, me leva noite afora, me besunta bem de vaselina, e daí, lua, ME LEVA, lua, ENTÃO.”
Eiríkur Guðmundsson | “Panorama” | Ríkisútvarpið | Rás 1 | 3 de outubro de 2008 |
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| sábado 05 de julho de 2008 |
O CAUSO DE TORARINO NASARES
Torarino Nasares invernou certa vez na corte do rei Canuto, o Grande, onde também se encontrava Torstênio, filho de Raguenilda. Lá, eles ficaram amigos e juraram amizade eterna, acordando que, por serem conterrâneos, deviam somar esforços.
Torstênio navegou então até o Fiorde do Arquipélago, onde Godemundo, o Rico, ofereceu-lhe pouso na Estância Campina de … Torstênio conta-lhe o que tinha acordado com Torarino, e então Einar, o irmão de Godemundo, convida-o para ir à Estância do Rio Cruzeiro, acompanhado do outro sujeito, ao que ele declinou. Houve gente que sugeriu a ele trazer algumas peças de lã fiada, por conta da estadia, pois Torarino, que morava num pontal no norte da Península da Laguna, raramente economizava com seus hóspedes.
E quando Torarino perguntou ao amigo o que ele pretendia fazer, Torstênio conduziu uma boa cavalhada até o Fiorde do Arquipélago. Toranino esbanjou cordialidade. Ofereceu pouso a Torstênio e toda sua tripulação – dezoito homens no total. Torstênio acompanhou então o amigo até sua estância. Lá chegando, Torarino mandou carnear todo seu rebanho ovino, e assim fartaram-se durante aquele inverno. Torstênio emprestou à esposa de Torarino tudo do bom e do melhor para a casa.
Chegada a primavera, Torstênio perguntou ao capataz de Torarino quanto poderia ter custado tudo o que haviam consumido durante aquele inverno. O capataz respondeu que aquilo devia ter custado uma fortuna. O povo do Fiorde do Arquipélago achou aquilo um exagero, mesmo para a já proverbial hospitalidade de Torarino. Porém, Torstênio arrematou um rebanho ovino equivalente ao que fora abatido, para devolver a Torarino. Presenteou a dona da casa com os mimos domésticos que havia trazido. Por fim, cedeu metade de seu barco a Torarino, convidando-o para acompanha-lo em suas viagens. Torarino agradeceu todos aqueles regalos.
Partiram no verão. Tão logo desembarcaram, o rei Olavo convidou Torarino para hospedar-se na corte. Torarino aceitou, e estendeu o convite a Torstênio.
Nisso, o rei afirmou que fazia um bom tempo a sua corte não abrigava nenhum súdito de Canuto, o Grande, observando, porém, que Torstênio gozava de excelente reputação:
– Não seria nada mal ter no meu serviço alguém que tão bem serviu ao rei Canuto.
Dito isto, o rei submeteu a decisão final a Torarino.
Quando, porém, Torarino afirmou que o convite do rei para que permanecesse na corte incluia o amigo, Torstênio retrucou:
– Podes até ser convidado do rei, mas convinha solicitar permissão para mim. É melhor ter que pedir pouso ao rei Olavo do que ser convidado de qualquer outro rei.
Dito isso, o rei indicou-lhes seus assentos. Santino e Toríbio, cortesãos do rei Olavo, tiveram que sentar-se depois de Torarino e seu amigo, o que lhes pareceu um desaforo.
Não demorou para anunciarem que alguém procurava por Torarino. Era um tal de Bernardo, sobrevivente de um naufrágio no norte de Halogalândia, o qual, dizendo-se sobrinho de Torarino, vinha pedir-lhe ajuda. Torarino disse que podia arranjar-lhe pouso junto a um estancieiro que conhecia. Bernardo, porém, retrucou que parentes deviam ficar sob o mesmo teto. Torarino disse que não sabia ao certo quem ele era, quanto mais se eram realmente parentes. Bernardo seguiu no encalço do outro, que retornava ao salão real. Lá chegando, Torarino informou ao rei sobre o que se passava.
O rei disse a Torarino que o tal sobrinho poderia ficar, “mas sob a tua responsabilidade, cabendo a ti garantir que a estadia dele não cause transtornos”.
Então, o rei ordenou que Bernardo tomasse assento na segunda bancada, a qual foi devidamente preparada para ele. O sobrinho ficou, assim, entre Torstênio e o cortesão Santino. Torarino garantiu que iria tomar todas as precauções para que a estadia do sobrinho transcorresse sem surpresas, pedindo-lhe que não mexesse numa agulha sequer enquanto estivesse na corte. Torstênio falou pouco, mais interessado que estava em prestar atenção no que o rei dizia, da mesma forma que Bernardo.
Certa noite, já quase no inverno, Bernardo dormiu um pouco além da conta, despertando quando os demais já haviam deixado o palácio e a missa da tarde já estava começando; ele se levanta apressado, mas já estava escuro quando ele finalmente sai, o que não o impediu de avistar Santino e Aires com seu séquito à distância, pois o local onde se encontravam era mais iluminado.
Santino lamentava ter uma má notícia para dar: seu rei estava sendo vítima de uma traição, uma traição arquitetada pelo rei Canuto, que enviara Torstênio até a Islândia, para seduzir Torarino com presentes caros, para que este traisse o rei Olavo; em troca disso, Torarino teria recebido um anel de ouro Canuto:
– Ele traz este anel na mão esquerda, de maneira dissimulada, enquanto ostenta na mão direita, à vista de todos, o anel que o rei Olavo lhe deu – disse Santino.
Bernardo foi então para a missa, e não cuidou mais daquilo que ouvira.
No jantar, Santino e Aires mal tocaram a comida. O rei perguntou se eles estavam indispostos. Santino respondeu tratar-se de algo pior do que peste, mas que não diriam nada antes da reunião do conselho real do dia seguinte, quando então contaram tudo ao rei. Olavo disse só acreditaria naquilo depois de averiguar sobre o tal anel do súdito de Canuto.
O rei Olavo dirigiu-se até o lavabo e, puxando a manga de Torarino, encontrou sob a camisa deste, o anel de ouro de que Santino havia falado, e então acreditou no complô armado contra si. Perguntou, furioso, de onde vinha aquele anel. Torarino respondeu que o anel já pertencera ao rei Canuto, que lhe havia dado de presente.
– Então por que razão o usas com tanta dissimulação, diferentemente do anel que te dei? – perguntou Olavo.
– Por que eu o uso tão dissimuladamente, meu Senhor, e na mão esquerda, não tem nada a ver com o valor do regalo. O que importa é que eu levo na mão direita o anel que recebi do mais valeroso dos reis, aquele a quem hoje servimos – respondeu Torarino.
Mas o rei não quis dar crédito às palavras de Torarino, e ordenou que ele, além de Torstênio e Bernardo, fossem detidos e jogados ao calabouço, acusando-os de traição lesa-majestade. Muita gente ficou chocada com aquela notícia. O bispo, que viera tomar a confissão dos acusados, informou ao rei que nenhuma traição fora cometida por eles, aconselhando que uma inquisição fosse aberta para esclarecer o caso, para que Deus testemunhasse qual das partes estava dizendo a verdade.
Decidiu-se, então, que o bispo conduziria a tal inquisição. Bernardo suportou os ferros com firmeza e hombridade. Suas mãos ficaram em bolhas ao final da provação. Por isso, o rei declarou-o culpado, ao passo que o bispo se absteve de emitir seu voto.
O rei disse a Torarino que visse aquilo, ao que este respondeu:
– Ainda que vós não declareis Bernardo inocente, isto não é suficiente para pagar por tudo aquilo que nos é imputado neste momento.
O rei disse a Torstênio também desse uma olhada.
Torstênio, ao ver as mãos em bolhas, declarou:
– As coisas são como são.
O rei então questionou:
– É tudo o que tens a declarar?
Torstênio disse então que a provação deles seria longa demais, se ele fosse contar o causo desde o início. O rei disse-lhe, porém, que, naquelas circunstâncias, era seu dever dizer tudo o que sabia.
Torstênio começou assim sua narrativa:
– Meu pai chamava-se Ricardo, e minha mãe Raguenilda. Eram ambos de origem aristocrática. Meu pai morreu quando eu era um guri. Minha mãe casou-se então com um sujeito chamado Trando. Tiveram dois filhos, Berno e Trando, e não havia muita diferença de idade entre nós, irmãos. Berno morreu jovem, e Raguenilda voltou então à Suécia, enquanto Trando resolveu reclamar a herança paterna para si. Quanto a mim, caí na estrada, trilhando toda a rota oriental até Jerusalém, onde fui batizado, e de lá tomei o rumo do norte, de volta para a Suécia. Quis, então, iniciar minha mãe na verdadeira fé, o que ela recusou, dizendo que, ao trocar de relegião, eu tinha morrido para ela. A coisa estava nesse ponto, quando chegamos ao seguinte acordo: aquele cujos deuses se mostrassem mais fracos deveria abrir mão de sua fé e adotar a do outro. Então, os ídolos de minha mãe foram postos num baú, no qual foi encostado um ferro em brasa: as chamas logo se alastraram, passando de um ídolo ao outro, e eles arderam até ficar totalmente carbonizados. Depois, o mesmo ferro foi novamente aquecido até ficar em brasa, e eu o segurei, nove seguindo o exemplo de outros cristãos, ferro …, já que não havia nenhum clérigo por ali, e a mão o suporto durante três noites. Na terceira noite, porém, sonhei que um homem de compleição clara veio até mim, louvando-me pela minha coragem, dizendo que eu devia gozar dos benefícios da minha boa-vontade em iniciar minha mãe na verdadeira fé, e ainda que a mão que padecera seria mais bela assim do que a que estava intacta, “mas nela levarás luva depois disso, e não te orgulharás em meu nome”, e que eu havia de receber minha paga ainda neste mundo, convivendo com reis, e orientou-me a mostrar minha mão somente se a minha vida dependesse disso. E quando a mão foi solta, era como se uma moeda de ouro tivesse tomado o lugar onde antes estava o ferro, e em volta uma linha vermelha tinha se formado, e a carnação ficou mais saliente ali do que no resto. Vendo isso, minha mãe adotou o cristianismo, e todos os nossos amigos da região também. Quanto a mim, mantenho a mão oculta desde então.
Torstênio então tirou sua luva e exibiu a mão, dizendo que Bernardo tinha com certeza pago o preço de sua ignorância quando de sua provação … O rei concordou, e juntamente com o bispo, foram até Bernardo, para inquiri-lo mais uma vez. Bernardo contou então tudo aquilo que que ouvira e acobertara sobre a traição, dizendo que Torarino tinha-lhe dito para não tocar em nada nem levantar qualquer rumor no palácio real.
Então Santino e Lobato foram detidos, algemados e forçados a declarar a verdade. Confessaram então a calúnia. O rei desejava que Torarino escolhesse a punição deles, e que eles fossem executados. Porém, Torarino decidiu desterrá-los da Noruega, confiscando para si todos os bens deles, e afirmando que graças ao seu venturoso rei que a verdade dos fatos fora apurada.
Torarino esteve sempre, desde então, ao lado do rei Olavo, e com ele tombou. |
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| domingo 25 de maio de 2008 |
ARRUMAÇÕES AO SÁBADO
O Huguinho tinha 5 anos, vivia com o pai e com a mãe, e não gostava nada de limpar a casa. Muito menos ao sábado. Mas onde é que já se viu? Os sábados não podiam ter sido inventados para isso. Mas quem é que se ia lembrar de limpar uma casa ao sábado? Quando o som do pontapé na bola; das pedaladas; das corridinhas e das caçadinhas se organiza em sinfonia, enquanto o sol sorri, brilhante, lá fora? Ou mesmo dentro de casa. Quer dizer, também há bolas dentro de casa - embora a mamã não goste. E outros brinquedos, claro. Uma infinitude de possibilidades. Agora, lembrar de limpar ao sábado, só mesmo de alguém que, com toda a certeza, não teria mais nada para fazer. Mamã: - Huguinho, já arrumaste os brinquedos? Então vem ajudar aqui a mamã na sala enquanto o pai arruma o escritório. Huguinho: - mmmmmmmmrrmmm... ohh mamãããããããã!!... Porque tenho que ser sempre eu a arrumar os brinquedos? Mamã: - Huginho, porque os brinquedos são teus e és tu que brincas com eles! Já imaginaste se o papá e a mamã não arrumassem os papeis depois do trabalho? Ou se não limpassem e arrumassem a cozinha depois de cozinharem? E por aí fora...? Não, eles não podem ser arrumados agora. Não agora. Nem pensar. Não só o Huguinho brinca com eles mas também eles brincam com o Huguinho. O Huguinho não os pode parar agora. Não lhes pode suspender a vida que lhes deu e, simplesmente, arrumá-los. Não agora que estão todos a meio dum jogo de futebol e, os bonecos preferidos dele – os power rangers - estão a perder por dois a zero. Huguinho mete o Sportacus – o seu heroi preferido - no bolso e monta o seu carrinho electrico, o Newton – sim, monta, porque não o recarregou e agora só com as pernas o faz mover; e, sim, o Newton. Era para ter sido Kepler mas ficou Newton -, pensa numa boa desculpa e vai até à sala ter com a mamã.
Huguinho: - Mamã, desculpa mas não te posso ajudar a arrumar. Mamã: - Porquê Huguinho? Huguinho: Mamã, escuta bem: o meu mundo é totalmente diferente do teu. Tudo tem vida à minha volta, mamã. Todos os brinquedos que me deste. E tu nem imaginas como eles falam e brincam comigo! E como todos eles precisam de mim para poderem brincar. Assim que mos dás, mamã, eles ganham vida ao toque dos meus desejos. E muitos deles até já fazem o que lhes mando fazer. Neste momento, estamos todos a meio dum jogo, mamã, e é muito importante que a minha equipe ganhe. Estamos a perder por dois a zero. E eles precisam de mim para ganhar! Eles não brincam sozinhos, mamã! A mamã sorri perante tão notável explicação e casta convicção e responde: Mamã: - Huguinho, meu querido filho, a mamã gosta muito, muito, muito de ti e, como a casa também não se arruma sozinha, vai propor-te o seguinte: vais buscar o «capitão» da outra equipe; deixas o Newton no quarto e vens aqui ajudar a mamã com eles os dois nos bolsos. Vamos os quatro dar vida a estes panos e vassouras. Vamos cantar enquanto o fazemos. E quem acabar primeiro ganha. E depois fazemos a segunda parte no teu quarto. E vamos fazê-lo sempre, até que estas vassouras e panos trabalhem sozinhas e já nem precisem de nós. Que dizes?
Bem, o Huguinho não sabe se a mamã consegue dar tanta vida quanto ele mas... é um desafio. Quanto mais não seja, todas as mamãs gostam muito, muito, muito dos filhos e... por amor tudo se faz. Além disso, quem é que quer que a mamã deixe de gostar «muito, muito, muito» e passe só a gostar «muito, muito»?
O melhor é fazer mesmo. A mamã vai ver só quem é que dá mais vida. Huguinho: - Vamos, Newton, rápido!!! [Escrito por RUI FILIPE VIEIRA em Reykjavik, 24/05/2008] |
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| sábado 24 de maio de 2008 |
PREFÁCIO A "UM MANUAL DE TRADUÇÃO" (PETER NEWMARK)
Este livro levou cinco anos para ser escrito. Partes dele foram roubadas duas vezes durante minhas viagens – numa delas a ponta de faca – e tiveram, portanto, que ser reescritas. Espero que tenham ficado melhores do que antes – caro devaneio de todo escritor cujos originais tenham sido extraviados, roubados ou deturpados. Além disso, o “progresso” deste livro foi retardado por solicitações de ensaios a serem apresentados em conferências, quatro dos quais foi possível encaixar aqui. Já os demais, enumerados na bibliografia, mostraram-se especializados demais para serem incluídos neste livro.
Não se trata aqui de um manual no sentido clássico. Não inclui, como planejara originalmente, textos em diferentes idiomas para serem traduzidos pelos leitores. Em vez disso, inclui nos anexos exemplos de análises textuais do ponto de vista da tradução, traduções comentadas e resenhas de traduções, que espero sejam ilustrativas dos vários argumentos levantados neste livro e provoquem o leitor a reagir ao se haver com estes três tipos de exercícios extremamente motivantes.
Se este livro possui algum elemento unificador, este é com certeza o anseio de ser útil aos tradutores. As construções teóricas dele constantes são tão somente generalizações feitas a partir da prática translacional, e os argumentos foram expostos para serem partilhados ou rejeitados pelo leitor, ou simplesmente para provocar a reflexão.
A terminologia especial de que me utilizo é explicada, seja no decorrer do próprio livro, seja no glossário final.
Espero que este manual seja utilizado em conjunto com "Approaches to Translation", meu livro anterior, do qual ele é, em vários aspectos, uma ampliação e uma revisão. No entanto, os capítulos sobre terminologia institucional e metalinguagem são mais aprofundados no livro anterior do que neste.
Não é do meu feitio repetir-me, seja na fala ou seja na escrita, por isso decidi reproduzir aqui meu ensaio sobre a gramática de casos, de difícil acesso, e ao qual já não tenho muito mais a acrescentar no momento.
Este livro não é obra de um acadêmico. Certa vez, publiquei um polêmico ensaio sobre o Horácio de Corneille na revista "French Studies", e fui incentivado a escrever uma tese de doutorado sobre o tema. Porém, quando me dei conta de tudo o que teria que fazer para conclui-lo, perdi o interesse e acabei desistindo. Noutra ocasião, um professor universitário alemão se negou a revisar "Approaches to Translation", sob pretexto de que a bibliografia estava eivada de erros – que ele se recusou-se a indicar quando solicitado, ainda que tenha afinal voltado atrás e feito a revisão – o que é em si lamentável, porém o fato é que a minudência acadêmica não constituía a essência daquela obra, nem tampouco do presente livro.
Considero-me um tanto “literalista”, como bom partidário da verdade dos fatos e da precisão. Acredito que as palavras, as frases e os textos façam sentido, e que somente se deve preterir a tradução literal na presença de razões de ordem semântica e pragmática fortes o suficiente, o que, com efeito, acontece na maior dos casos, textos mal escritos constituindo talvez a única exceção. O que, porém, não significa que eu seja um paladino do “primado absoluto da palavra”, tal como o senhor Alex Brotherton de Amsterdã afirmou num tom ressentido e sem fundamentar seus argumentos. Os absolutos são descabidos quando se trata da tradução, atividade na qual tudo é contingente, e onde um princípio qualquer – p.ex., o princípio da precisão – pode encontrar-se em oposição, ou na melhor das hipóteses em estado de tensão, com relação a outro princípio – p.ex. o princípio da economia do texto.
Por mais que às vezes queiramos livrar-nos de ambos os fantasmas da tradução – o velho e bom contexto e o velho e bom leitor – infelizmente isto ainda está fora de questão. Quando muito, podemos afirmar que certas palavras num texto são bem menos suscetíveis ao contexto que outras, e que certos leitores – p.ex. os de um manual de instruções, cuja razão de existir é o próprio leitor – são mais importantes que outros – p.ex. os leitores de um poema, caso em que o autor e, consequentemente, seu tradutor talvez escrevam somente para si mesmos.
Da mesma forma, quando Halliday afirma ser a linguagem um fenômeno completamente social, unificando ou simplificando, por conseguinte, as funções expressiva e apelativa de Bühler, sob o argumento de que não há distinção alguma entre elas, naquilo que chama de função interpessoal, só posso dizer tratar-se de uma questão de crença, ou de uma filosofia fundamentada na expressão de uma crença, da qual não comungo. Mas é tudo em boa medida uma questão de ênfase – e de reação – muito mais do que de oposição diametral. Num momento em que a palavra vem sendo conduzida para os atoleiros do discurso e o indivíduo para o atoleiro das massas, minha intenção é reivindica-los a ambos, na tentativa de reestabelecer o equilíbrio. Se um autor se expressa de forma individual em um determinado tipo de texto, o tradutor deve expressar-se de uma forma igualmente individual, mesmo que lhe tenham inculcado a idéia de que seu papel é apenas repercutir, ou noutras palavras corroborar, as convenções sócio-discursivas de determinada época.
Ao escrever um livro sobre tradução, me dou conta de que aqui se trata de uma nova profissão, ainda que repouse sobre uma prática bastante antiga, e de que o arcabouço de conhecimento de pressupostos atualmente existentes sobre ela são necessariamente provisórios, e no limite polêmicos e titubeantes.
Este livro pretende ser razoavelmente abrangente, ou seja, pretende abordar a maior parte dos tópicos e questões implicados na tradução. Pelo menos nesta pretensão, trata-se de um livro original. Apesar da natureza polêmica de vários capítulos nele incluídos, este livro é, portanto, pensado como uma espécie de obra de referência para tradutores. De toda forma, alguns trechos do capítulo 18 não ficaram totalmente satisfatórias, e foram incluídas somente para indicar alguns caminhos para o leitor. Conto poder ampliar o livro – o último que escrevo sobre tradução – com vistas a uma segunda edição, e sugestões de melhoria serão bem aceitas. |
| Postado por anonymous.gourmet às 10 : 42 am | Comente {0} |
| terça-feira 16 de outubro de 2007 |
O QUE SE PERDE QUANDO MORRE UM TRADUTOR?
O britânico Bernard J. Scudder, um dos maiores tradutores de literatura islandesa, medieval e contemporânea, para a língua inglesa, faleceu ontem à noite. Deixa a viúva Sigrún Ástríður Eiríksdóttir e as filhas Hrafnhildur Ýr Bernardes e Eyrún Hanna Bernardes, além de um punhado de autores sem a sua inconfundível voz anglófona: Arnaldur Indriðason, Einar Már Guðmundsson, Guðbergur Bergsson, Snorri Sturluson, Thor Vilhjálmsson e os rapsodos que cifraram o legado nórdico antigo em dois poemas lapidares "Völuspá" ["A Profecia da Sibila"] e "Hávamál" ["O Discurso do Altíssimo"]. Q.E.P.D. |
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| domingo 16 de setembro de 2007 |
T.S. ELIOT FALOU E DISSE:
Palavras soçobram,
rangem e às vezes até racham sob sua carga,
sob o peso da pressão, derrapam, derivam, fenecem,
apodrecem de imprecisão, não param no lugar,
não param quietas.
[Four Quartets, "Burnt Norton", V] |
| Postado por anonymous.gourmet às 9 : 30 pm | Comente {0} |
| quarta-feira 29 de agosto de 2007 |
LISTA DE COMPRAS
Verniz, papel-almaço, tinta, caneta.
Fumo grosso, cânfora e pimenta.
Um bom vinho tinto, arame, tela.
Rum, gengibre, vidro pra janela.
Cânhamo, ameixas e uvas passas.
Cem libras de café, anzóis, linhaça.
É tudo do que precisa desta vez
Do Thorgrímsen este bom freguês.
Mas depois tem a lista da patroa.
Um barril de cachaça, mas da boa!
Sabão em pó, chaleira e abanico.
Seis canecas, pires e um penico.
Pente, escova, agulhas e novelo.
Corpo e alma merecem igual zelo.
Ai, e se ela tivesse uma caderneta,
Levaria até o bolicheiro de veneta!
[dom Gísli Thorarensen, „Minnisseðill í kaupstað"]
[do livro „Ljóðmæli", publicado em Rvq no ano de 1885]
[considerado um dos piores livros de poesia da literária islandesa] |
| Postado por anonymous.gourmet às 12 : 00 am | Comente {0} |
| sexta-feira 27 de abril de 2007 |
Na cozinha...o lugar do encontro.
Cozinhar é algo que continua acontecendo na cozinha.
Foi nos últimos anos que descobri que eu adoro cozinhar, e essa atividade tornou-se meu hobby. O engraçado foi que, ao contrário de muitos comilões, não foi exatamente por gostar de comer que me vi na cozinha. Descobri os prazeres da culinária depois de explorar os significados simbólicos da cozinha. Adoro uma cozinha. Sabe por quê???
As visitas formais acontecem sempre na sala.
Somente quem já é de casa é que dá "um pulinho" na cozinha. A cozinha é precisamente o espaço da informalidade, das confidências, dos segredos, e dos melhores comentários. Revelações etnográficas e as melhores entrevistas eu consegui depois que fui admitida na cozinha de uma casa:
"Vem aqui tomar um cafézinho que eu vou te contar..."
Em meio a panelas, temperos, louça suja e afazeres surgiram sempre as melhores revelações, as trocas mais verdadeiras, os comentários mais originais e espontâneos. O espaço da cozinha permite tudo isso.
Sem o protocolo e as formalidades da sala de estar, a vida vibra é na cozinha mesmo.
A cozinha permite todas as misturas, ou quase todas. De ingredientes e temperos, permite criar algo novo, num processo semelhante a alquimia, com liberdade para o exercício da criatividade. Possui os seus cheiros, texturas, sons, cores e sabores.
Então eu preparei um Mousse de Chocolate.
Escolhi essa receita porque não gosto daquelas que utilizam gelatina pra garantir a consistência firme. Um bom mousse deve ficar em pé por si mesmo, se sustenta sobre as próprias pernas.
Além disso, essa receita leva chocolate amargo de verdade, e não chocolate em pó ou achocolatados, e descobri que a comida de verdade é sempre a mais gostosa. Utilize chocolate da melhor qualidade que puder, pois isso garante o sucesso da receita!!!
200 gr chocolate amargo
30 gr. manteiga
3 ovos separados
sal
2 col de açúcar
creme de leite
Preparo: Derreta o chocolate em banho-maria, acrescente a manteiga e as gemas. Bata as claras em neve com o sal e acrescente o açúcar aos poucos, até adquirir consistência firme. Misture tudo cuidadosamente.
O creme de leite pode ser incorporado à receita ou servido na forma de chantilly como acompanhamento. Costumo deixar gelar por algumas horas antes de servir.
Essa receita é imbatível! Aceita um cafézinho? |
| Postado por sapiezinskas às 2 : 41 pm | Comente {4} |
| quinta-feira 26 de abril de 2007 |
ILHAS FEROÉ EM ACELERADA EXPANSÃO ECONÔMICA
Gastos com salários nas Ilhas Feroé cresceram 17% na indústria pesqueira, 24% na indústria naval e 13% na construção civil. Isso apenas no primeiro semestre de 2007.
É um reflexo do aumento de 4% no número de asalariados no país, entre janeiro de 2006 e março de 2007. É o maior crescimento de um ano para outro desde 2002.
Numa das 17 ilhas do arquipélago feróico, das quais apenas uma é desabitada, Sandoy [ilha do Areal], verificou-se recentemente que todas 300 mulheres em idade economicamente ativa encontram-se empregadas. É a primeira vez na história do arquipélago que isso se verifica.
A essas todas, a taxa de desemprego em março de 2007 foi de meros 1,7%, superando até mesmo a da Islândia, que tem o menor nível de desemprego entre as nações independentes [2% no primeiro trimestre deste ano].
A população total das Feroé, que é um território autônomo do Reino da Dinamarca, era de 48.219 em 1.° de janeiro de 2006. |
| Postado por anonymous.gourmet às 2 : 24 pm | Comente {0} |
| quarta-feira 25 de abril de 2007 |
ACHADOS E PERDIDOS
PENNAVESKI FANNST — Pennaveski með nokkrum pennum fannst í Mjóstræti 22. apríl. Upplýsingar í síma 551 3602.
ESTOJO ENCONTRADO — Um estojo com algumas canetas foi encontrado na rua Estreita no dia 22 de abril. Informações pelo telefone 551 3602.
Morgunblaðið, 24. apríl 2007 | Folha da Manhã, 24 de abril de 2007 |
| Postado por anonymous.gourmet às 9 : 42 am | Comente {0} |
| quinta-feira 19 de abril de 2007 |
A VIAGEM JAMAIS VIAJADA, por Sigurður Nordal
Entre os anos 160 e 180 depois de Cristo, Marco Aurélio Antonino, um dos mais sábios e magnânimos caudilhos de todos os tempos, foi o César de todo o Império Romano. Quis o destino que seu dileto amigo e conselheiro Quinto Cecílio Metelo tombasse logo no início do seu governo, na campanha contra os partas. O palácio de Quinto Cecílio, um dos mais bem aquinhoados cidadãos de toda a Roma, situava-se numa esplendorosa herdade nos arredores daquela urbe. Educado, como o próprio César, dentro dos rígidos preceitos do estoicismo, fora um indivíduo comedido e severo, vivendo uma vida de austeridade e contenção, apesar de toda a sua riqueza. Deixara um filho único, Lúcio Cecílio Metelo, que contava dezoito anos de idade quando da baixa do pai. Lúcio tivera acesso à melhor educação, privara dos ensinamento de filósofos e sábios e exercitara-se nas várias modalidades desportivas. Carecia, porém, do caráter determinado e versátil do pai. Assim, ao assumir a herdade e os demais apanágios que lhe cabiam por sucessão, em tão tenra idade, contava com uma personalidade ainda bastante insegura. Contudo, sempre foi uma figura simpática, e a muitos jovens da vizinhança e da própria urbe romana aprazia visitar-lhe na herdade paterna, onde desfrutavam dos variados requintes pelos quais os romanos tinham um fraco. Lúcio, que nisso dava então os seus primeiros passos, mostrava-se, não obstante, um noviço aplicado, cuidando de desfrutar da vida e de sua mancebia enquanto pudesse. Escusado dizer que Lúcio desgarrou-se assim rapidamente de todos os bons hábitos paternos, acostumando-se à dissipação dos fidalgos, dos folgazões e das faceiras: vivia cada um de seus dias em fabulosos folguedos, trocando o dia pela noite e a noite pelo dia, e não poupava no que quer quer fosse, já que havia de sobejo para esbanjar. Logo diziam que ninguém mais tratava seus convidados com tal esmero, oferecendo-lhes todo o tipo de ricos e inauditos mimos. O César, que estava a par de todas estas circunstâncias, confiava que, assim que tivesse bebido deste cálice até a borra, Lúcio cansaria deste tipo de vida.
Nisso, alguns anos passaram, e quando o César julgou que Lúcio já estava tardando em tornar aos bons hábitos que se havia imbuído desde tenra idade, decidiu enviar ao encontro do mancebo um de seus sábios. Este decidiu fazer-se passar por jogral de canto e harpa, para melhor desempenhar sua missão, ao cabo da qual retornou ao César para relatar sua visita com riqueza de detalhes. No palácio de Lúcio, contou, dava-se um luxuriante banquete, com manjares e bebidas de primeira. A alegria era tal que somente a custo conseguia-se um instante de silêncio. A certa altura, porém, Lúcio rogou a atenção de seus convidados para as cantigas do jogral, bem como o devido respeito que a sua anciã condição exigia. E quando este passou a decantar sobre a vaidade da vida regada de prazeres, sobre as amargas conseqüências do hedonismo, sobre a sujeição às leis da natureza e sobre os decorosos hábitos de vida como única forma de garantir uma tranqüila disposição, Lúcio assentia com a cabeça, lembrando a boa orientação ministrada pelo pai e pelos mestres. E enquanto o enviado do César feria em sua arpa antigas heróidias latinas sobre as célebres batalhas e combates em que os romanos tiveram que bater-se antes que o mundo inteiro se curvasse a eles, Lúcio endireitava-se em seu assento, e seus olhos lampejavam por um átimo, para ato contínuo tornarem-se baços outra vez. E enquanto o jogral tecia loas rimadas à paz de se estar só, à sabedoria da natureza e às lucubrações dos filósofos –os mais felizes dos seres– Lúcio pôs um semblante curioso, como quem ignora um saber oculto, mas ansia por aprende-lo. O jovem fidalgo –opinou o sábio– devia há muito tempo estar farto de seus banquetes e festas, mais até do que seus próprios convidados, mas faltava-lhe iniciativa para deixar esta vida e separar-se de seus amigos e convivas. Para concluir, aconselhou o César a convocar Lúcio para o exército, como forma de levá-lo, assim, a uma forçosa mudança de hábitos.
Depois de agradecer ao emissário pelos seus bons ofícios, Marco Aurélio refletiu sobre o tema. Lúcio, pensou, não parece talhado para as lides da guerra: se o fosse, já teria dado mostras disso. E caso ele tivesse que bater-se no fronte, somente o oficialato estaria à altura de sua fidalga condição. Por outro lado, o César não ignorava que muitos de seus oficiais preferiam levar uma vida pândega, assim na guerra como na paz, razão pela qual seus triunfos eram escassos. Ponderou, ainda, sobre o risco de extinção daquela ilustre casa romana em linhagem paterna, caso Lúcio, ainda solteiro e sem descendentes, viesse a tombar no fragor da batalha. E mesmo que ele se tornasse um soldado de valor e voltasse são e salvo de suas campanhas, seria de se esperar que retomasse o seu antigo desregramento, tão logo recuperado das suas tribulações.
Marco Aurélio não tardou muito em despachar um cavaleiro portando uma missiva para Lúcio, cujo teor, salvo as fórmulas de cordialidade, era o seguinte:
“Trás muito meditar, decidi confiar-vos, dentre todos os meus súditos, uma missão. Fi-lo em vista dos feitos de vossos avoengos em prol do Império Romano, em suas horas mais difíceis; por serdes filho de Quinto Cecílio, meu amigo leal e um contumaz benfeitor; e também porque, conquanto inexperiente, desfrutastes da melhor educação possível. É das mais espinhosas a missão que vos foi reservada. Para começar, ela deverá ser desempenhada no mais absoluto segredo, e por isso, devereis viajar desacompanhado e parcamente aviado, mesmo que nem recursos nem comitiva vos faltem, antes abundem. Desconheço as terras e caminhos que tereis que esquadrinhar para além das nossas fronteiras, e tampouco sei de alguém que a respeito deles possa vir a instruir-vos. Tenho, porém, razões para crer que deveis esperar todo tipo de tribulação e provação em vossa jornada. Em todo caso, a única coisa certa sobre a vossa missão é que, caso bem sucedida, ela poderá penhorar o bem-estar do Império Romano a longo prazo. Devereis comparecer à presença do rei daquele suntuoso país ao qual vos destinareis, para despachar com ele e com seus conselheiros e sábios. Tereis, assim, que ser tão sábio quanto eles todos, a fim de poder discernir aquilo que seja o melhor para a vossa pátria e, então, defender as vossas conclusões neste sentido. Ninguém poderá aconselhar-vos sobre aquilo que a todos é inaudito, ainda que não passe pela minha cabeça ocultar-vos o fato de que outros já partiram com a vossa mesma missão, da qual, porém, nenhum deles retornou. No entanto, devo confiar nos dotes da vossa estirpe, bem como naquela máxima filosófica segundo a qual o homem sábio e benfazejo tudo consegue, tanto o que ele faz por iniciativa própria quanto o destino lhe reserve, desde que aja com convicção e perseverança. Tereis três anos para preparar-vos para a vossa partida, a qual poderá, no entanto, tardar um pouco além deste prazo.”
Depois de ler a mensagem do magnífico César, Lúcio ficou sem palavras. Sua primeira atitude foi despachar seus convidados e convivas. Afastou-se de todo o convívio social, passando dias inteiros encerrado em seu palácio, incapaz de pensar em mais nada além de como podia arrostar aquela missão. Logo deu-se conta de que estava mal preparado para suportar as dificuldades e provações que aguardavam-no. Passou, então, a exercitar-se nas várias modalidades desportivas, bem como nos ofícios da caça e da pesca, na artilharia, na natação e no montanhismo. Inicialmente, estas atividades o deixavam totalmente esgotado, já que os excessos de sua vida de farra e desregramento o haviam deixado débil e indolente. Com o tempo, porém, passou a suportar melhor aqueles esforços, fazendo-os com prazer. A estas alturas, o seu passatempo favorito era aventurar-se sozinho por ignotas trilhas montanhosas e selváticas, pernoitando ao ar livre. Durante estas excursões, amiúde altercava-se com ursos, arruaceiros e viandantes, voltando para casa lastimado e às vezes salvando-se por pouco. Os escravos de Lúcio ficavam pasmos de ver seu amo expondo-se de forma gratuita a este tipo de provação e perigo, e mais ainda quando notaram que, ao invés de dormir em seu leito, ele preferia recostar-se no chão de seu dormitório. A essas todas, convenceram-se que os deuses deviam ter-lhe roubado o juízo.
Também saltou aos olhos de Lúcio o completo desleixo com que a sua herdade fora gerida quando ele cuidava apenas de divertir-se: os capatazes roubaram tudo o que estava ao alcance, deixando os escravos entregues à pândega e à desídia. Não lhe pareceu adequado puni-los por isso, pois sabia ser sua a culpa deste estado de coisas. Passou, porém, ele próprio a administrar suas propriedades, incluindo a herdade paterna, e o fazia com grande zelo e dedicação. Mandou reformar as edificações que se achavam em precário estado e expandiu a sua área cultivada. Meio ano depois de receber a missiva imperial, ocorreu-lhe que, caso ele não retornasse de sua missão, não deixaria herdeiro algum que continuasse sua linhagem. Decidiu, então, remediar a situação, escolhendo para sua esposa a filha de um vizinho, um fidalgo empobrecido que, apesar de sua modesta condição, criara seus filhos dentro da melhor educação possível. Sua esposa deu à luz ao cabo de um ano um filho varão, o qual foi batizado Quinto, em homenagem ao avô.
Porém, uma vez casado, Lúcio pôs-se a pensar que ainda lhe faltava muita coisa para poder considerar-se pronto para a partida. Deu prosseguimento ao seu desenvolvimento atlético, bem como às lides relacionadas à sua propridade. Mas agora era como se ele tivesse tempo para tudo aquilo de que não era capaz quando não tinha nada com o que se ocupar, pois achave-se tão bem disposto que todos os trabalhos lhe sabiam igualmente interessantes. Também começou a arrebanhar convidados outra vez, mas decerto eram eles de um estofo diferente do dos antigos: passou a receber indivíduos que haviam viajado muito e conhecido os costumes e os idiomas de países longínquos. Entretia-o tremendamente conversar com esta gente. Impressionava-se com seus relatos de que muitas línguas distintas havia, as quais, não obstante, eram capazes de designar as mesmas coisas, ainda que com palavras totalmente diferentes. Outra coisa espantosa era saber que todos os povos veneravam um certo número de divindades, as quais atribuiam diferentes nomes e descreviam de diferentes formas. Também era costume dos povos destes diferentes países classificar de forma bastante variada o que consideravam correto, bom e belo. Mas no final, convergiam essencialmente quanto a estas coisas. A todas estas, pareceu-lhe por demais óbvio que ainda estava longe de compreender o que seria o melhor para o império romano, pois isso dependia, no limite, em compreender melhor o que era mais importante para o homem que busca um existência próspera e feliz. Pôs-se então a estudar aquelas disciplinas que seu pai pretendia que ele aprendesse, e chamou assim de volta todos aqueles sábios que havia dispensado ao atingir a maior idade. Os ensinamentos deles lhe pareciam agora bastante mais proveitosos do que antes, uma vez que se tornara um homem mas experiente, que tinha agora em mente que tipo de sabedoria podia ser-lhe útil quando tivesse que resolver as questões que eventualmente surgiriam no decorrer de suas discussões com o tal rei cujo nome ignorava, uma vez que fosse ter com ele. Já agora compreendia que havia outros caminhos para atingir uma boa existência, além daquele proposto pelos estóicos, que até então haviam sido os seus luminares. Fez vir até si sábios de procedência tão diversa quanto a Grécia, a Pérsia, o Egito e a Judéia, e seguia com fascínio as especulações de todas estas escolas. Quando, porém, lhe parecia que a variedade e a complexidade destas teorias o estavam deixando confuso, recorria ao velho hábito de dirigir-se sozinho até as montanhas ou às selvas, deitar-se à noite ao ar livre, ouvir as vozes da natureza e contemplar maravilhado as estrelas no firmamento, e tal era o efeito disso que voltava renovado destes passeios, a tal ponto que a existência lhe parecia bem mais simples do que os filósofos e seus alfarrábios sugeriam. Não obstante, mais desejoso ficava de aprofundar-se nos ensinamentos destes.
Eis, assim transcorreram os três anos que Marco Aurélio concedera a Lúcio para os preparativos de sua viagem. Passaram-se ainda vários outros anos, um depois do outro, sem que no entanto ele recebesse qualquer chamado do César. Lúcio teve outros filhos, sua herdade ia de vento em popa, e seus bens só faziam aumentar. Ao passo em que ia tornando-se mais e mais consciente, preocupava-se cada vez mais com a situação de seus escravos e agregados. Passou a conceder liberdades graduais a seus escravos, e ia adquirindo outros, aos quais procurava, no que dele dependesse, oferecer oportunidades de crescimento pessoal. Seus vizinhos passaram a buscar os seus conselhos, tanto em questões administrativas quanto em outros temas bicudos. Foi convocado a tomar parte nas deliberações do Senado, o que aliás lhe cabia por direito hereditário. Foi eleito cônsul, cargo que desempenhou durante quatro meses, como então era usual. Com não pouca freqüência, despachava com o imperador, o qual dava muito crédito às suas propostas. Jamais, porém, o César fez qualquer alusão à questão de sua viagem. Acontecia às vezes, no entanto, de o grandioso César observar-lhe com olhos cúmplices durante um despacho qualquer, como que a sugerir: que tudo isto te sirva de preparativo, pois lembra-te que és tu o indivíduo que deverá encetar uma grande jornada, quando a ocasião se fizer.
Lúcio aguardava tal viagem com paciência. Agradecia cada dia que passava e ela não chegava. E acreditava ser capaz de aprender algo novo a cada dia. Algo que pudesse vir-lhe um dia a ser útil enquanto assistia seus filhos crescerem, e as uvas amadurecerem nas parreiras até ficarem da cor púrpura e prontas para serem colhidas. Ele pensava: aproveita este dia para observar a maravilha que vive em tudo aquilo que te é dado viver, pois é bem possível que amanhã tenhas que abrir mão disto tudo e partir para uma viagem só de ida. Seus dias então acumulavam-se como as pérolas de um colar, no qual cada nova pérola era mais resplendente e mais valiosa que as anteriores, porque nela se refletia, cada vez mais cristalino, o esplendor da hora que passa. Sempre lhe ocorria que a pérola que lhe caía na mão naquele dia podia bem ser a derradeira pérola naquele colar, e então saudava cada um de seus dias com inaudita alegria, perguntando-se a cada vez: “Mas será que amo este dia porque com ele a minha partida, e com ela o fim dos meus dias, se faz mais iminente?”.
Em certo momento, Lúcio passou a oferecer grandes banquetes, mas preferia mandar prepara-los enquanto estava em seus solitários retiros nas montanhas. Mandava convidar todos os seus antigos convivas, a quem não deixava faltar nada que sabia ser do agrado deles. A eles, parecia extraordinário que Lúcio circulasse entre seus convivas ostentando os preciosos trajes que caracterizam os caudilhos, porém com o físico mais atlético, e também mais judiado pelas intempéries e pelas estradas do que os caçadores que perseguem camurças nos penhascos tortuosos na face norte de Monjoves. Mas o que mais lhes chamava a atenção, e lhes parecia mais estranho, era que este homem, que havia dado as costas aos prazeres e aos divertimentos havia muitos anos, era o mais feliz de todos quanto ali haviam, e visivelmente desfrutava dos manjares que eram servidos com muito mais gosto do que eles próprios eram capazes, e bebericava com vontade os preciosos néctares servidos, sem no entanto dar sinais de embriaguez, e era capaz de dosar diversão e assuntos sérios com tal habilidade que muitos deles chegavam a esquecer-se das demais delícias oferecidas naquele banquete, somente para escuta-lo e fazer-lhe várias perguntas, coisa totalmente incomum neste tipo de ambiente.
Certa manhã, dez anos decorridos desde que Marco Aurélio mandara aquela fatídica carta, um núncio imperial, alegando urgência, apresentou-se em seu palácio. Nunca antes havia o César mandado convoca-lo, mas agora era o notificava para ir à sua presença naquela mesma noite, e Lúcio imaginou com isto que sua viagem era agora mais que iminente. Apressou-se a despachar o emissário com sua resposta positiva, comprometendo-se a encontrar o César próximo ao pôr-do-sol. Preparou-se então para a partida. Vestiu sua indumentária de caça, e escolheu sapatos suficientemente resistentes para calçar, colocou uma malha e empunhou uma lança. Isto feito, despediu-se de seus filhos e da esposa, a qual disse que tinha motivos para acreditar que ficaria longe por muito tempo. No tocante à administração da propriedade e à educação de seus filhos, ele havia feito todo o possível para deixa-la não menos preparada do que ele próprio. Tomou lugar, então, em seu carro, e tocou direto para a cidade. Em lá chegando, despachou o carro de volta, e percorreu o último trecho à pé, ao longo da via Ápia, onde vários carros de fino acabamento circulavam em ambos os sentidos. Nas duas margens daquela via, e em toda a sua extensão, era possível divisar os incontáveis marcos monumentais dos caudilhos. Quando avistou o esplêndido memorial de sua antepassada Cecília Metela, que ainda hoje permanece no mesmo lugar, Lúcio desviou-se por um momento do trajeto, até alcançar o bosque próximo à estátua da deusa da caça, Diana. Caminhou até o bosque, virando-se na direção do monte Albano, que resplancia contra o céu do fim de tarde, e percorreu mentalmente todos os momentos de sua vida, especialmente os últimos dez anos, que eram, afinal, os mais ricos em termos de experiências, lições e alegrias. Revisitou com piedosa satisfação os seus anos de puberdade, durante os quais dera mostra da afobação dos jovens ignorantes ansiosos por agarrar a sua sorte, somente para acabar sempre de mãos vazias. Talvez tenha sido melhor assim, pois desta forma não precisava ter saudade de nada daquilo, que ele agora sabia ser apenas futilidade. E o que teria sido feito dele agora, se a cesárea missiva nunca tivesse chegado? Provavelmente ele seria hoje um velho de trinta e dois anos, que levaria aos lábios, com mãos já trêmulas, a mesma copa, noite após noite, sem ao menos sentir sede ou desfrutar deste prazer. Os últimos dez anos haviam passado voando. Porém, se ele tivesse que partir naquele mesmo instante para a Germânia das gélidas montanhas, ou para a Núbia de cálidas areias, e de lá prosseguir para outras regiões ainda mais desconhecidas, levaria como companheiras de viagem um inesgotável acervo de pensamentos e recordações. Nisso, chegou aos seus ouvidos o burburinho da monumental estrada, e pensou no destino de todos aqueles que por ali desfilaram, coroados de glória, na flor de sua idade, mas cujas cinzas agora repousavam pacificamente ao lado do caminho. Qual o sentido disso tudo? O que significa, afinal, a vida, e o que vem a ser a morte? Nisso recordou as últimas palavras do imperador Adriano, as quais, ainda jovem, ouvira seu pai recitar certa vez:
ANIMVLA, VAGVLA, BLANDVLA,
HOSPES COMESQVE CORPORIS,
QVÆ NVNC ABIBIS IN LOCA,
PALLIDVLA, RIGIDA, NVDVLA?
“Ó alminha sutil e errante, conviva e companheira do corpo, para onde tencionas tu agora, assim tão tenue, dura e desnuda?” Possuído no ato por tamanha afeição à vida e gratidão por existir, Lúcio deixou-se cair de joelhos e pousou o rosto sobre o tronco de uma árvore, num arrebatamento sem palavras. Ao recompor-se, aquele momento parecia ter durado toda uma eternidade. Aquele último dia antes de encetar a sua viagem rendera-lhe mais alegrias do qualquer outro em sua vida. Pensou com seus botões: “Teria eu adquirido consciência de minha ventura, caso não tivesse sido confrontado com o fato de que a minha vida poderia ser mais curta e mais difícil do que as de meus pares?”
Lúcio retomou a Via Ápia em marcha batida, até atravessar a Porta Capena a caminho do Monte Palatino, onde devia encontrar-se com o César. Marco Aurélio recebeu-o a sós, em seu despacho particular. O magnífico César estava magro e pálido, e seu rosto era a um só tempo terno, cínico e cansado. Sua indumentária era tão despretensiosa quanto a que Lúcio escolhera para viajar, sendo plausível pensar tratar-se tanto de um guarda pretoriano encarregado da defesa daquele grandioso palácio ou do supremo magistrado do Império Romano. Lúcio saudou-o com a maior reverência, e o César então dirigiu-se a ele nos seguintes termos:
“Cecílio Metelo, dentro de três dias, devo afastar-me uma vez mais de Roma, pois de novo os marcomanos investem contra as nossas fronteiras. É possível que eu não retorne desta campanha. Não pretendo, porém, dizer-vos adeus, sem antes confessar que induzi-vos em erro. Enganei-vos, preguei-vos uma partida, cousa pouco digna de um César. Porém, como até mesmo o César pouco pode naquilo que mais importa, não restou-me outra alternativa.
"Todo aquele que pretenda viver razoavelmente deve guiar-se por algum objetivo de vida. Sei que não buscáveis mais do que a felicidade, mas o fazíeis em franco desacordo com as leis do universo, com a vossa própria natureza e com os imperativos da sociedade. Estáveis em guerra não declarada com a natureza e com a vossa própria sensibilidade, que opera segundo as leis daquela. E, nesta guerra, estáveis fadados à derrota. Lancei mão de meu poder para dar à vossa vida um objetivo. Tentei, porém, faze-lo de forma tão remota e indefinida, que isso não colocasse-vos um cabresto e não pesasse-vos como um grilhão, mas sim tornasse-vos um ser humano dotado da mais ampla liberdade, abrisse os vossos olhos para as possibilidades da vida, ensinando-vos a tirar proveito das virtudes com que o destino vos abençoou. Imaginei que havíeis de encontrar por vossa própria conta alguma vocação à altura de um filho de meu dileto amigo Quinto, de um cidadão romano e de um homem de valor.
“Preparastes-vos digna e cabalmente para aquela missão que o vosso César afirmara haver reservado para ti, e apresentai-vos a mim neste momento totalmente preparado para dirigir-vos aonde quer que sejais ordenado. Cumpristeis, assim, com o vosso dever, e agora resta-me cumprir com o meu, e isentar-vos desta obrigação. A jornada a que me referia jamais deverá realizar-se. Podeis, amanhã mesmo, tornar ao vosso lar, e não precisais mais esperar por qualquer ordem do César.
“Lúcio, vejo em vosso semblante uma mescla de decepção e alegria. Havereis vossa mente ansiado, enquanto vos despedieis de vosso lar com saudade e tristeza, por este momento de hombridade que finalmente se apresentava? Ou será que a vossa vida cairá agora no ostracismo, uma vez extraviado este objetivo que mobilizava o vosso pensamento?
“Peço-vos um pouco mais de paciência. Todos nós outros temos uma jornada a cumprir, muito semelhante àquela que eu havia planejado para vos. A nossa solitária jornada em direção ao desconhecido, lá onde eu não serei mais vosso César, lá onde tampouco podereis portar lança, lá onde deveremos nos desnudar perante o rei desta ignota pátria, despojados de tudo que não seja o que levamos em nossas mentes e em nossos corações. De meus mestres aprendi que depois da morte, nossa alma, pura como uma pequena centelha, deverá reunir-se ao fogo da divindade em grande congraçamento. Os antigos filósofos acreditavam no juizo final, no reino do outro mundo e na persistência das almas após este julgamento. Não estou capacitado para julgar qual das duas correntes está mais próxima da verdade, mas quero acreditar que, se julgamento houver, que lá não seremos julgados por nenhuma outra lei que não seja aquela inscrita em nossa própria mente, e que não nos abandona, ou seja, pelas leis da natureza, com a qual a nossa mente está em harmonia se prestarmos atenção na voz de ambas, livres de quaisquer interferências externas. Pois não deveriam os próprios Minos e Adamastor, caso caiba a eles julgar-vos, submeter-se às incontornáveis e ineludíveis leis do universo da mesma forma que vós? E mesmo que eles pretendessem ser misericordiosos, não poderiam subitamente, num passe de mágica, livrar-nos de todas aquelas ilusões que a nossa mentalidade vaidosa, nossa hipocrisia e nossos hábitos de vida mesquinhos são capazes de urdir. Lá como aqui, somente o vosso próprio empenho poderá depor a vosso favor.
“Posso adivinhar o que tendes em mente. Pensais oferecer-vos para acompanhar-me nesta campanha contra os marcomanos. Isto está fora de questão, Lúcio. Não faltam-me homens mais experimentados do que vós nas lides da guerra. Além disso, me parece mais cordato, e eu marcharei mais tranquilo sabendo que deixo aqui no Lácio muitos homens de valor para cuidar dos interesses do Estado durante a minha ausência. Continueis a dar mostras de vossa excelência no Senado Romano, e a servir de modelo para os vossos concidadãos. Educai vossos filhos para que eles sejam ainda melhores do que vós mesmos já sois. E bebamos agora da copa de despedida dos bons amigos, conforme é tradição desde os tempos de Trajano. Depois disso, nossos caminhos se afastam. Vós, de volta à vossa herdade, ao vosso lar, onde, espero, vos aguarda uma vida longa e cheia de saúde para vós e para os vossos. Quanto a mim, hei de marchar à sombra do antigo estandarte aguilar, rumo ao campo de batalha, lá onde é ínfima a linha que separa a vida e a morte. E como disse Sócrates, qual de nós trilha melhor caminho, é mistério que só aos deuses é dado saber”.
[Irradiado em 17 de março de 1940] |
| Postado por anonymous.gourmet às 10 : 34 pm | Comente {0} |
| quarta-feira 18 de abril de 2007 |
ABSURDISTÃO
Absurdistão é um termo amiúde utilizado para descrever, de forma jocosa, um país no qual o absurdo é a norma, especialmente no que tange às autoridades e ao poder público.
O termo era originalmente usado por dissidentes do bloco soviético, para referir-se à União Soviética e ou a seus Estados satélites, no todo ou em parte.
No idioma tcheco, o termo "Absurdistán" era freqüentemente utilizado pelo dissidente, e mais tarde presidente da república, Václav Havel, remetendo sua origem para o período da perestróica.
[Definição requentada da Wikipédia]
Abonações de uso:
"Na República Popular do Absurdistão, conhecida pelos norte-coreanos como..."
"Absurdistão: curdo tenta se matar pelo Brasil. Um torcedor do Curdistão – região montanhosa no Oriente Médio - tentou o suicídio após a vitória da França..."
"Ela, que se chamava União Soviética, há menos de dez anos, tem tudo para merecer, nos próximos dez, um nome mais adequado: República do Absurdistão"
"Nunca antes, no reino do Absurdistão, houve uma penca de maravilhas comparável àquela..."
"É o Absurdistão, como disse a revista alemã Der Spiegel. A população é miserável..."
"Há por aqui uns quantos que podiam ir era para o Absurdistão..."
"Amigos, isto não é um país, é o Reino do Faz-de-Conta ou o Absurdistão, como queiram..."
E assim por diante. Não sei como é que foi, só sei que foi assim. E quem quiser que conte outra. |
| Postado por anonymous.gourmet às 1 : 31 pm | Comente {0} |
| quinta-feira 20 de julho de 2006 |
MOSAICO E PERSIANA
Um sol filtrado chocou-se em sua tes
Revelando quase sem querer segredos.
No mosaico da mesa os ansiosos dedos
Estratégias fúteis traçavam de xadrez.
Não, não, não ia ser, ainda, desta vez:
A tarde não iria cair como redenção.
Porém, ele acatou o seu cotidiano pão
Sabendo que ela viria qual mansa res.
Sabores de veludo no extrato de malte
Recordavam um passado que não seu.
E então não havia nada mais que falte.
Um tépido tremor acariciou-lhe a pele.
Com alívio, ele admirava o azul do céu
Que pela persiana ria de volta para ele.
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| Postado por anonymous.gourmet às 1 : 15 am | Comente {1} |
| quarta-feira 19 de julho de 2006 |
DIA DE SOL
Escrever por que se as palavras sobram?
Tem outro teor o idioma do momento.
O verbo vem apenas ocultar intentos
Que rastejam sob a pele como cobras.
Mais claro dia, mais propenso a sombra.
Também em meio à turba se anda só.
A pedra mais dura não preclui do pó.
O mais aviado é que mais se assombra.
Quando o dia cai como uma sentença
Melhor deixar-se estar sob a alfombra.
De que serve esquadrinhar escombros
Se se faz a confusão ainda mais densa?
Junta e joga tudo à toa pela tua janela
E vaí andar na rua de camisa amarela.
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| Postado por anonymous.gourmet às 1 : 14 am | Comente {0} |
| terça-feira 18 de julho de 2006 |
NO MEIO DO CAMINHO
Sempre quis viajar ao centro da Terra
E sabia bem onde iniciaria a viagem.
Como faltara outra estranha paragem,
Largou um dia tudo e foi à Inglaterra.
De lá até o país que o círculo encerra
Tormentas e tremores de terra nova.
Rapidamente rastreou rotunda cova
Atrás das sempre enregeladas serras.
Foram-lhe pródigas na via as alcovas
E o amor que logo desaguava noutro.
Como cavalo que já foi um dia potro,
A paixão na sua pia faina se renova.
De amor em amor e de país em país,
Viveu, morreu, de permeio foi feliz.
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| Postado por anonymous.gourmet às 1 : 13 am | Comente {0} |
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